
A globalização atualmente se apresenta como um dos grandes desafios neste fim de século e início do Terceiro Milênio. É uma mudança no mundo em todos os sentidos, é uma revolução resultante da era tecno-cêntrica. É a máquina como centro de tudo. E aí temos então esse desenvolvimento desenfreado do compu-tador com os seus reflexos na comunicação, na eliminação das barreiras entre países, na formação cultural, na vida social, no controle das empresas, na apuração de lucros e transações entre empresas; assim, o simples apertar de uma tecla transfere bilhões de dólares de um país para outro. Agora, tudo se centraliza na máquina. Temos aí, então, esse novo bicho chamado de globalização.
A globalização, como ela hoje ocorre, tem seus reflexos na vida de todos nós: Não somente no avanço do conhecimento entre os povos, na atualização técnica, mas também com os seus efeitos negativos no desemprego, na dominação das grandes corporações transacionais que, muitas vezes, poucas delas em con-junto são maiores do que vários países somados, não só em termos de faturamento, mas em termos de poder, de influência nas decisões dos governantes. A globalização não é um acontecimento dos nossos dias, já que se iniciou por volta dos séculos XV e XVI, com a expansão marítimo-comercial européia, na época do Re-nascimento. E, assim, continuou através dos séculos, porém de uma forma bem diferenciada daquela que está ocorrendo em nossos dias. E essa diferença está na velocidade e abrangência de seu processo, em escala assustadora nos dias de hoje. Mas o que chama a atenção neste momento é, sobretudo, o fato de generalizar-se em vista da falência do socialismo real. De repente, o mundo tornou-se capitalista e globalizado. Nós po-deríamos simplesmente dizer que a globalização é a eliminação das barreiras entre as nações, em todos os sentidos; é o conjunto de transformações que ocorrem na ordem política e econômica mundial. O aspecto central dessa mudança é a integração dos mercados, que passam a ser dominados por grandes empresas tran-sacionais. No modelo globalizado, os países abandonam paulatinamente as barreiras tarifárias e abrem-se ao comércio e ao capital internacional. E a globalização acontece em vários sentidos.
Com a globalização, passa a ocorrer uma produção internacionalizada, as finanças passam a ser glo-balizadas, e o trabalho passa a ser internacionalizado, ou seja, é criado uma divisão do trabalho dentro das próprias empresas transnacionais. Por outro lado, a distribuição das funções produtivas não se encontra mais concentrada em um único país, mas espalhadas por vários países e continentes, cada um fabricando uma parte de um produto, dependendo das vantagens fiscais, custo de mão-de-obra e outros benefícios concedidos às empresas pelos governantes de cada país. Assim, a globalização é marcada pela expansão mundial das grandes corporações internacionais. As empresas transnacionais atuam em vários países ao mesmo tempo, compram a melhor matéria-prima pelo menor preço em qualquer lugar do mundo, e se instalam onde os governos oferecem mais vantagens e onde a mão-de-obra é mais barata. Por outro lado, essas empresas, por possuírem um sistema de distribuição globalizado, enviam seus produtos para todos os cantos do mundo, para os lugares onde os seus lucros são maiores. E, então, essas empresas transnacionais se tornam verdadeiros impérios, não só pelo seu tamanho gigantesco, mas pela força que tem em diversos países e a flexibilidade de movimentar altos valores, muitas vezes sendo mais fortes do que alguns países.
Para se ter uma idéia do tamanho da globalização, basta mencionar a formação de blocos entre alguns países, feita para aumentar o seu poder de dominação e de negociação. Esses blocos, na realidade, represen-tam um primeiro passo na globalização. Segundo um estudo do Boletim Mundo, de 1996, existem inúmeros blocos econômicos que foram criados a partir de 1957, inicialmente com a formação da União Européia, que abrange quinze países, tem a maior renda per capita de US$19.668, uma população de 372 milhões de habi-tantes, e o terceiro maior PIB de US$7.324 bilhões. Outro bloco, o NAFTA, criado em 1988, é maior. Ape-sar de abranger apenas três países, tem um PIB de US$7.568 bilhões, 391 milhões de habitantes e uma renda per capita de US$19.356. Mas o maior de todos os blocos econômicos é o da APEC, criado em 1989, que abrange 17 países e um território, tem um PIB de US$14.119 bilhões e uma população de 2,2 bilhões de ha-bitantes, mas com uma renda per capita de apenas US$6.369. Para se ter uma idéia do tamanho desses blocos, o MERCOSUL, criado em 1991, abrange apenas quatro países e tem um PIB de US$859 bilhões; são apenas 207 milhões de habitantes e uma renda per capita de US$4.140. Esses blocos agora avançam no sentido de uma unificação mais global, como por exemplo da moeda – como foi o recente caso da União Européia – para atingir outros segmentos de livre comércio e de transações e relacionamento entre os povos. Na realidade, cada país passa a ser uma pequena parte dentro de um bloco econômico que, com um forte poder de barganha, passa então a orientar as decisões de todo o bloco. Essas associações de países, em geral dentro de uma mesma região geográfica, passam então a estabelecer relações comerciais privilegiadas entre si e atuam de forma conjunta no mercado internacional. Esses blocos trazem inúmeras vantagens, como por exemplo, a redução ou a eliminação das alíquotas de importação entre os países-membro, para a criação de zonas de livre comércio. Por outro lado, os blocos aumentam a interdependência das economias dos países-membro. Nessas condições, a formação de blocos econômicos nada mais é do que um dos processos de globalização.
A flexibilidade das grandes corporações em vários espaços geográficos ao mesmo tempo aumentou com a revolução científica da eletrônica. Assim, a utilização da informática que, mediante um simples aperto de uma tecla de computador, transfere milhões de dólares da bolsa de valores de um país para outro, e assim faz a chamada especulação financeira. Se o mercado é propício, lá vão os investimentos com uma rapidez nunca vista. Portanto, a rápida evolução e a popularização das tecnologias da informação, tais como compu-tadores, telefones e televisão, têm sido fundamentais para agilizar o comércio e as transações financeiras entre os países. E o maior uso da comunicação via satélite permite que notícias sejam transmitidas instantane-amente para diversos países. Tudo isso permite uma integração mundial sem precedentes. Todavia, a compe-tição e a competitividade entre as empresas tornaram-se questões de sobrevivência. O poder das empresas no tocante ao domínio de tecnologias, de capital financeiro, de mercados, de distribuição etc. é desigual, e aí, então, surgem as relações desiguais entre elas. Algumas sairão vitoriosas e outras sucumbirão. Muitos setores da economia dificultarão a entrada de novos competidores. Desse modo, a noção de livre mercado é relativa. Muitos setores da atividade econômica já tem "dono" e dificilmente permitirão a entrada de novos produto-res. A globalização da economia e das finanças beneficia, assim, amplamente, o grande capital, as grandes corporações transnacionais. A crescente concorrência internacional tem obrigado as empresas a cortar custos, com o objetivo de obter preços menores e alta qualidade para os seus produtos. Nessa reestruturação, estão sendo eliminados vários postos de trabalho. Uma das causas desse desemprego é a automação de vários seto-res, em substituição à mão-de-obra humana. Nos países ricos, o desemprego também é causado pelo deslo-camento de fábricas para os países com custos de produção mais baixos. A globalização da economia exige das empresas nacionais um esforço para se adaptarem à nova realidade mundial, com métodos cada vez mais apurados de administração empresarial, controle eficaz do capital financeiro, contabilidasde, novas tecnolo-gias, baixos custos de produção, mão-de-obra altamente qualificada etc., requisitos que elas nem sempre são capazes de possuir. E aí, então, temos a concorrência desigual.
Inserido nessa nova conjuntura, nessa nova ordem econômica, o Brasil fez a abertura econômica para o exterior, tem aplicado a política de privatizações e empenha-se em desregulamentar sua economia, oferecendo vantagens às transnacionais para que aqui se instalem. O desafio que esse quadro nos impõe é o de definir uma política de controle da ação dessas corporações e dos capitais de curto prazo, principalmente daqueles que possuem enorme poder econômico e político, e centro de decisão no exterior. Por outro lado, no contexto de um país subdesenvolvido, os efeitos da globalização têm sido desastrosos. Um exemplo ilustrativo foi o ocorrido com o México, que viveu sua pior crise financeira em 1994. O país adotou toda a receita do FMI, mas, de um dia para outro, bilhões de dólares de capital especulativo foram transferidos de suas bolsas de valores para outras praças e, assim, a crise financeira resultante teve conseqüências drásticas. O Brasil, a título de mais um exemplo, se não tivesse agido rápido no início de 1999, teria tido uma das maiores crises de sua história que, felizmente, foi controlada mediante políticas rígidas adotadas de elevação das taxas de juros, liberação de câmbio, entre outras.
E, assim, de repente, vamos ouvir no rádio que a empresa tal estará encerrando todas as suas operações no Brasil e se transferindo para a África, onde o custo da mão-de-obra é a metade. Ou veremos países terem, de repente, um batalhão de desempregados em contradição com outros que passam a ser modelos de agressividade econômica, por terem custos baixos e receberem inúmeros investimentos das empresas transa-cionais. Por outro lado, já assistimos o poder das grandes corporações mundiais que tem sede em um país e grande parte de suas unidades em diferentes outros países, produzindo parte dos componentes em diversos locais, fazendo com que o custo total de produção final seja baixo e gerando um aumento de produtividade e de competitividade nunca antes vistos. Assim, a força dessas corporações e sua atuação geográfica estão mudando o enfoque da economia. Anteriormente, quem tomavam as grandes decisões econômicas eram os governos. Hoje, essas decisões estão sendo tomadas pelas grandes corporações que passaram a decidir basi-camente o que, como, quando e onde produzir os bens e serviços utilizados pelos seres humanos. Por outro lado, os governos não conseguem mais deter o movimento do capital internacional e estão perdendo o contro-le sobre a política econômica interna. A crise do México é o exemplo mais marcante dessa perda de controle. Os governos também estão perdendo a capacidade de proteger o emprego e a renda das pessoas. Se um país estabelece uma legislação que protege e encarece o trabalho, é provavelmente excluído da lista de muitos projetos de investimento. Há, enfim, uma perda de controle sobre a produção e a comercialização de tecnolo-gia. A globalização é uma tendência do mundo moderno, principalmente através da constituição das chama-das empresas transacionais, que operam – ou passam a operar – em diversos países simultaneamente. Tem vantagens e desvantagens, mas é evidente que as vantagens superam as desvantagens, desde que exista um controle efetivo sobre a balança de pagamentos. Quando um país entra nesse esquema, é evidente que entrou em um caminho sem volta. Como aspectos positivos, podemos dizer que a globalização permite o comércio entre os países de uma forma gradual e facilitada, com tendência a caminhar para um livre comércio e, assim, eliminando as barreiras existentes. A globalização permite que os países menos desenvolvidos tenham o a-cesso imediato à tecnologia, ao conhecimento científico, aos bens de consumo duráveis ou não e a todo tipo de desenvolvimento. Naturalmente, que esse acesso tem o seu preço, mas a globalização permite que todos tenhamos acesso imediato aos mais diversos tipos de bens e de conhecimento, aumentando o nosso conforto e nos permitindo queimar barreiras no processo do conhecimento. Entre as desvantagens, cabe-nos mencionar que a globalização é uma forma de domínio dos países mais desenvolvidos onde estão localizadas as grandes corporações, principalmente na área da tecnologia e do conhecimento. É uma forma de “escravatura branca”. É também uma forma de transferência de riquezas para os países mais desenvolvidos – os exportadores -, através do sub-faturamento. E aí, então, vem a nossa pergunta para meditarmos a respeito: COMO FICA A CONTABILIDADE FRENTE A TUDO ISSO? Essa contabilidade que está encarregada de refletir os fatos, e de demonstrar a real situação da empresa nesse mundo globalizado?

0 comentários:
Postar um comentário